Quando o crime vira “terrorismo”: o Brasil na mira retórica de Washington
Nos últimos dias consta que o governo dos EUA teria concluído um processo técnico interno para avaliar a classificação das facções brasileiras PCC (Primeiro Comando da Capital) e Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras. A discussão não surgiu do nada: autoridades americanas já afirmaram considerar esses grupos uma “ameaça significativa à segurança regional”, em razão de sua atuação no tráfico internacional de drogas, armas e outras atividades criminosas transnacionais.
A eventual designação, se confirmada, abriria um leque bastante amplo de instrumentos legais para Washington. Não apenas sanções financeiras, congelamento de ativos e restrições migratórias, mas também — ao menos em tese — a possibilidade de operações de segurança nacional fora do território americano contra grupos classificados como terroristas. É justamente essa última hipótese que tem provocado arrepios em parte da diplomacia brasileira, da imprensa e de setores do próprio governo federal, que enxergam aí um potencial risco à soberania nacional.
Convém, porém, respirar fundo antes de imaginar helicópteros Black Hawk pairando sobre as favelas cariocas ou drones cruzando os céus da Zona Leste de São Paulo. Não seria a primeira vez que os EUA recorrem a esse expediente. Em janeiro deste ano, por ordem executiva de Donald Trump, Washington incluiu diversos cartéis mexicanos — pelo menos cinco grandes organizações — na lista de entidades terroristas estrangeiras. Ainda assim, até agora o México, que fica ali do lado, separado dos EUA apenas por uma linha no mapa e um muro parcialmente construído, segue existindo normalmente e, até onde se sabe, não foi invadido.
A lista também passou a incluir organizações criminosas associadas à Venezuela de ex-Nicolás Maduro e até grupos ligados ao crime organizado em El Salvador. Este último caso é especialmente curioso. O país centro-americano é governado por Nayib Bukele, aliado de primeira ordem de Donald Trump. Talvez por coincidência, ou talvez não, ninguém parece cogitar uma intervenção militar em território salvadorenho.
No Brasil, entretanto, a mera hipótese de classificação das facções como terroristas bastou para produzir um certo pânico institucional. O governo Lula designou o chanceler Mauro Vieira para tratar do assunto diretamente com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, tentando convencer Washington de que PCC e Comando Vermelho não se enquadram propriamente na definição clássica de terrorismo. Segundo a concepção mais difundida, inclusive pela ONU, terrorismo envolve o uso sistemático de violência contra civis com finalidade política, ideológica ou religiosa. As facções brasileiras, por mais brutais que sejam, convenham, parecem motivadas por algo bem menos metafísico: dinheiro.
Especialistas em segurança pública e direito internacional têm lembrado justamente disso. PCC e CV são organizações criminosas de caráter mafioso, dedicadas a atividades econômicas ilegais — tráfico de drogas, armas, extorsão, lavagem de dinheiro — e não movimentos ideológicos que pretendam derrubar governos ou instaurar uma ordem religiosa ou política alternativa.
Ainda assim, suponhamos que Washington ignore essa distinção conceitual e decida, de fato, seguir adiante com o rótulo de “terrorismo”. Surge então uma questão prática fascinante. Que tipo de intervenção militar seria plausível em um país continental como o Brasil, com mais de oito milhões de quilômetros quadrados?
Seria uma operação cirúrgica? Talvez drones sobrevoando bairros nobres de São Paulo em busca de algum empresário discretamente associado ao PCC? Ou mísseis de precisão caindo em vielas do Complexo do Alemão, enquanto analistas de Washington explicam ao mundo que se trata de uma ação necessária para proteger a segurança hemisférica?
Talvez o próprio Trump imagine algo semelhante ao que acabou de fazer no Oriente Médio: localizar líderes inimigos e eliminá-los com ataques seletivos, como ocorreu com figuras do alto escalão iraniano. Alguém realmente acredita que bombardear dois ou três chefes de facção resolveria o problema estrutural do crime organizado no Brasil? Não resolverá, como matar Ali Khamenei não aniquilou o regime autocrático iraniano.
Fosse assim tão simples, bastaria um míssil aqui e outro ali, e pronto: décadas de desigualdade social, corrupção institucional, falhas do sistema penitenciário e mercados internacionais de drogas desapareceriam num passe de mágica, não é mesmo?
Seria reconfortante acreditar nisso. Infelizmente — ou talvez felizmente para o território brasileiro — a realidade costuma ser bem mais complicada do que os roteiros simplificados de segurança nacional produzidos na cabeça do Agente Laranja.
O episódio revela menos sobre o PCC ou o Comando Vermelho e mais sobre a lógica geopolítica contemporânea: quando a política externa de uma potência decide expandir suas categorias jurídicas, o mundo inteiro passa a caber dentro delas. Mesmo quando esse mundo tem dimensões continentais, como o Brasil.
Lui França, 03/2026



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