Eu choro pelo Irã



Leio hoje uma manchete que muito me entristece e indigna: "Ninguém vai chorar pelo Irã”, crava o Estadão.
Como se coubesse decidir quais povos merecem luto e quais podem ser apagados da face da Terra sem que isso cause comoção.
Como se houvesse um tribunal invisível, instalado na redação, autorizado a hierarquizar a dor humana.
Não é apenas uma frase infeliz. É algo mais profundo e perturbador: a naturalização da indiferença.
A transformação da ausência de empatia em argumento. Quando a dor alheia vira manchete cínica, já não se trata de análise geopolítica — trata-se de desumanização.
Mas choro, sim.
Choro porque me recuso a aceitar que vidas possam ser classificadas como descartáveis.
Choro pelo Irã como choro por tantos outros povos que, ao longo das décadas, pagaram com sangue as disputas de poder travadas por nações mais fortes.
Chorei por Hiroshima e Nagasaki, devastadas por bombas que consumiram cidades inteiras e seus habitantes.
Chorei por Dresden, transformada em cinzas sob bombardeios impiedosos.
Chorei pelo Vietnã, pelo Iraque, pela Líbia, pela Síria, pelo Afeganistão. Choro, ainda, pela Ucrânia, pela Palestina, por Gaza, que segue massacrada, quase 80% destruída e uma população inteira sem futuro.
E agora, sim, choro pelo Irã.
Choro por pessoas comuns — trabalhadores, mães, crianças, professores — que desejam apenas viver, trabalhar e criar seus filhos em paz.
Choro pelos civis que deixam de ser gente para virar estatística. Pelos que passam a ser chamados de “efeitos colaterais”, como se a linguagem técnica pudesse anestesiar a brutalidade.
O que mais inquieta não é somente o estampido das armas. É o aplauso que ecoa à distância. É a frieza de quem escreve como se a devastação de um país fosse uma nota de rodapé aceitável. É a celebração velada — ou explícita — da ruína de nações que não se alinham aos interesses das grandes potências. É a postura subserviente diante de líderes estrangeiros tratados como oráculos, enquanto suas decisões são aceitas como inevitáveis, quase sagradas.
O jornalismo deveria ampliar nossa humanidade, não reduzi-la. Deveria provocar reflexão, não legitimar indiferença. Quando passa a sugerir que ninguém chorará por determinado povo, ele não descreve o mundo, ele contribui para torná-lo mais árido.
Não aceito essa aridez.
Enquanto houver quem sofra, haverá quem chore. Enquanto houver vidas interrompidas, haverá luto. E enquanto houver quem tente convencer-nos de que certas tragédias são irrelevantes, haverá quem insista em lembrar que toda vida humana — sem exceção — merece ser pranteada. Lui França, 03/2026

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